1 de nov. de 2016

Só Francisco - as artes de Eduardo e Avelino em novembro no Palácio das Artes



 Avelino, Janilson e Eduardo

Janilson Sales de Carvalho
                No próximo dia dezesseis de novembro, os artistas Francisco Eduardo e Francisco Avelino Pinheiro estarão expondo suas obras no Palácio das Artes em Natal. Para os que ainda não conhecem, este é o antigo Palácio do Governo, na Praça André de Albuquerque. A mostra receberá o nome “Só Francisco”, uma ideia simples baseada nos nomes dos artistas, unificando seus talentos. Esta é uma oportunidade importante, pois eles não expõem juntos há alguns anos. Além disso, é o retorno de Avelino ao cenário cultural natalense. Eduardo é figura constante nas exposições e nos catálogos artísticos da cidade.

 Avelino Pinheiro
O talento deles já foi reconhecido pela crítica potiguar. Um componente importante que os une é o profundo conhecimento da alma da cidade. Eduardo e Avelino são caminhantes de Natal e mostram em seu trabalho o que vivem nas entranhas da capital. Por isso há força, alegria e beleza em cada trabalho.
Escolher uma obra de arte para embelezar a vida é semelhante a ter um grande amigo perto todos os momentos. Esse encontro diário com o quadro estimula a imaginação trazendo para o dia a beleza que ele precisa para ser bom. Os dois artistas conseguem construir essa ponte de prazer artístico em suas obras.









 Francisco Eduardo
Além da exposição, teremos a apresentação de artistas da música, também amigos da Cidade da Esperança, como os nossos dois expositores.  Será uma noite especial para os natalenses que amam a arte.
  
                   

“70 vezes 7” – Drika Duarte e o percurso belo e solitário do perdão




Janilson Sales de Carvalho

Tem uma frase de Miguel de Unamuno que teimo em repetir: “Não digo filósofos metidos a poetas, porque poeta e filósofo são irmãos gêmeos, se é que não são a mesma coisa”. O filósofo mergulha em suas reflexões nos conduzindo a conceitos e compreensões em longas jornadas mentais. Alguns percursos são exaustivos. O poeta anda com um canivete no bolso ou uma pedra pontuda. Rapidamente,  rasga a lona ou quebra a vidraça. Depois parte, nos deixando atônitos ou desmoronados diante do que nos revela.
Foi assim que me senti ao ler os poemas de “70 vezes 7” de Drika Duarte. Ela não coloca títulos, optando por algarismos romanos.  Assim, é o verso que nos exige o olhar e o belo sofrimento da descoberta. Seguimos guiados pelas palavras da poetisa, confiantes, até o abismo celestial. A utilização do número também nos remete ao tema bíblico do perdão evocado no nome da obra. O perdão é um dilema humano. Talvez algo que só aconteça com as mães, como no poema II:

Turva-se a noite amargurada
Quando a flor, ventre de sementeira,
Racha e seca como terra desfolhada,
Chora e sofre lágrimas de poeira.

Turvam-se os dias em noites derradeiras
E os maternos olhares sem itinerários
Perdem-se nas noites dos dias solitários...

O poema XXXVIII, entre tantos, também inquieta a alma ao abordar a velhice. Nesses dias frenéticos onde impera a distância física entre os seres e uma comunicação vazia de afetos, o velho passou a ser o último continente lembrado. Para alguns, o último empecilho ao céu material de bens e serviços. Ironicamente, alguns tolos acham que os velhos não sabem disso. A poesia revela esse engano. 

Um dia a pele se enruga, a mão envelhece,
O impulso jovial não mais se reconhece
Nos cabelos brancos em que a sabedoria se ergue...

Os anos angariados trouxeram solidão
E a simples alegria da doce sensação
De que a vida faz chorar ensinando a sorrir
E a amar todos aqueles que não te querem aqui


                Falei para Drika que seus poemas deveriam figurar em camisetas para serem lidos em todos os lugares. Acho que ficariam bem em outdoor. Na difícil seleção da camiseta, eu incluiria o poema XI. Lembrou-me a música “Paciência” do espetacular Lenine. Algo divino nessa terra monótona.   

Poema XI
A espera é um exercício delicado,
Um alimentar-se  de confiança e cuidado,
Doar de si a água que rega a flor ao lado

E rezar ao dia que ela possa florescer
Anunciando a beleza do amanhecer
Do tempo que amadurece e convida
A regar novamente a raiz da vida.

                “70 vezes 7” nos embarca no difícil trajeto do perdão. Possivelmente, um dilema silencioso e diário resolvido milhões de vezes, individualmente, no olhar, no silêncio, no sorriso ou numa lágrima escondida. A poesia é guia.

31 de out. de 2016

Os meninos – a obra-tesouro de Avelino Pinheiro









Janilson Sales de Carvalho
                Antigamente a foto representava um instantâneo. Um momento fugaz que se registrava temporariamente na vida das pessoas. Faziam-se cópias e cada um partia com seu pedaço de passado. Aquele rudimento do tempo era guardado em gavetas ou caixas e aparecia de vez em quando para reabrir a porta da memória. O mundo digital remodelou essa prática e permite o compartilhamento imediato da cena escolhida, repassando-a para milhares de pessoas, envolvidas ou não com o fato. Em lugar das caixas e gavetas, as imagens são arquivadas em inúmeras pastas digitais, emergencialmente construídas e, também, urgentemente esquecidas. Sumirão esfaceladas em milhares de bytes. O polegar do observador já não tocará o desalinho do cabelo da amiga na imagem de papel. A foto não passeará de mão em mão nas reuniões comemorativas. Se alguém for mais estiloso, as imagens serão projetadas em grande dimensão numa parede, sumindo em pequenos intervalos, sem dar tempo de tecer  comentários engraçados que animariam o encontro.
                Em rumo oposto, quando a foto vira obra de arte em uma pintura, a cena ganha uma perenidade e uma majestade que fixam o ser e o tempo. Daqui, faço uma breve reverência aos quadros vivos que aparecem nos filmes de Harry Porter. Eles nos olham, misteriosos e inquietantes, como se nos flagrassem como invasores de intimidades alheias. Talvez nos sintamos do mesmo jeito diante dos quadros imóveis expostos nas casas ou nos salões de arte. De fato, estamos curiosos para conhecer e saber sobre cada ser estampado nas telas.  
A obra de arte, no seu silêncio e imobilidade, resguarda a beleza de uma cena do passado. Penso aqui nos quadros de família ocupando as paredes dos mais diversos lares. A casa pode mudar de forma, mas o quadro retomará seu espaço de acordo com a importância dada ao retratado. Talvez permaneça em lugar especial enquanto os sentimentos dos ocupantes lhes forem favoráveis. Se o personagem legou péssimas lembranças, o quadro sumirá entre os entulhos ou será triturado no caminhão de lixo.
Mas, só se guarda o que se ama. Acredito que cada quadro exposto em uma casa tem um resgate de amor enxertado de saudade. Foi isso que percebi no momento em que observava, na casa do amigo Macau, um quadro de Avelino Pinheiro com a imagem de um festivo boi. Após alguns comentários, Macau me convidou para conhecer a obra que mais admirava daquele artista. Levou-me à sala da casa parando diante de um belo quadro que retratava seus filhos. O olhar daquele pai deve ter sido o mesmo quando observou a cena real com aqueles meninos, hoje homens. A pequena foto que serviu de modelo também estava guardada com o mesmo zelo. Ficamos alguns instantes em silêncio. Os olhos de Macau fixos no quadro. Um sorriso leve, uma alegria suave. Ali, o tesouro da casa. Um homem feliz, com um brilho nos olhos, desceu os degraus comigo naquela tarde de sábado.        
                 

29 de out. de 2016

CULT e Caros Amigos – 19 anos de resistência nas bancas da Cidade da Esperança






Janilson Sales de Carvalho

Há alguns anos, eu chegava à banca de Jailson, na Cidade da Esperança, e saía de lá com diversas publicações, entre elas: Língua Portuguesa, Discutindo Língua Portuguesa, Discutindo Literatura, Educação, Revista do Brasil, Nova Escola, Caros Amigos e CULT. Adquiria outras que tiveram curta duração, lançando no máximo três exemplares, apesar de bem elaboradas. Sempre aviso a Jailson: se falar de literatura ou ensino de língua portuguesa, guarde uma para mim. Esta semana estive na banca e saí com apenas duas: Caros Amigos e CULT.
                Sempre converso com Jailson sobre esses sumiços e ele me relata os problemas de distribuição em Natal. São poucas empresas e os títulos que circulam são os mais lidos ou os mais populares. Lamentavelmente, os dois temas que gosto não estão elencados entre os preferidos da população. Principalmente na periferia da cidade. Poderia resolver esse dilema com assinaturas, mas perderia a oportunidade de perambular pelo bairro e encontrar velhos amigos. Para mim, ir buscar as revistas é um ritual. Me programo, escolho horários tranquilos e trajetos movimentados. Nunca fiquei sem um feliz encontro. Na banca, converso com Jailson sobre manchetes, problemas locais e nacionais, enquanto degusto picolés de limão. 

                O meu antigo jornaleiro era Pedro, na Praça Aluísio Alves. Foi na banca dele que encontrei o primeiro número da revista Caros Amigos, em abril de 1997. No mesmo ano comprei o primeiro da CULT, em julho, na Hiperbanca. Pedro tem hoje uma loja de conveniências chamada Pedro 500 na Avenida Paraíba. A loja tem uma mesa de sinuca bem frequentada e as cervejas mais geladas do bairro. Sempre tem pessoas interessantes para uma conversa. Geralmente, quando saio da banca de Jailson, dou uma passadinha na loja de Pedro.  
                Gosto de revistas. Sou chegado a leituras em uma boa rede num lugar ventilado. Ainda tenho CULT e Caros Amigos. A primeira me leva ao especial mundo da literatura e a segunda ao Brasil profundo, com o seu espetacular multiculturalismo. Inclua-se também uma crítica séria aos dilemas nacionais. Compartilhei, por muito tempo, os artigos dessas revistas com colegas na universidade e com alunos na sala de aula. Sempre saí mais rico das leituras e dos debates. Há dezenove anos convivo com esses encontros pautados pelas revistas. Espero que mais dezenove venham.  

6 de jan. de 2016

No tempo das 14 mais



No tempo das 14 mais




Janilson Sales de Carvalho
                Para os mais novos, informo que “As 14 mais” era uma seleção de músicas que registrava as mais tocadas durante o ano.  No final do ano era lançado um LP que resumia os grandes sucessos e servia como ótimo presente natalino, juntamente com o disco de Roberto Carlos. Até os anos setenta funcionou bem. É claro que sempre existiu o “jabá” para corromper radialistas e apresentadores de tv. Nenhum sucesso é de graça. Mas, assim mesmo “jabazadas”, as 14 traziam uma diversidade interessante da riquíssima musicalidade brasileira. Nela, rock, samba, bolero, forró, bossa nova e todos os outros ritmos disputavam a faixas dos lados A e B do disco.
                Lendo as notícias twitadas em 06/01/2016, encontrei uma que informa que as dez músicas mais tocadas em 2015 foram as sertanejas. É claro que sabemos que há um mercado gigantesco estruturado em torno deste estilo musical. Não é por menos que Faustão e Roberto Carlos “convidam”, o tempo todo,  os “cantores sertanejos” para os seus programas. A coisa  funciona. Percebemos isso em cada espaço de bar ou beira de praia. Só consigo ouvir Zizi Possi, Geraldinho Carvalho, Vander Lee, Chico César, Zeca Baleiro, entre outros e outras, em rádios públicas. E o compromisso dessas rádios e tvs privadas com a arte musical brasileira?
Sei que a dor de cotovelo é do tempo de Cabral e que a traição matou Euclides da Cunha, mas transformar esses temas, forçosamente, em repertório nacional é demais. Sinto saudades de Reginaldo Rossi, pelo menos ele tinha personalidade e não pasteurizava sua breguice. Raul Seixas gravou “Sessão das dez” e Caetano Veloso gravou Fernando Mendes. Há lugar para todos. As grandes empresas de comunicação não podem determinar um padrão artístico para o Brasil. Precisamos encontrar alternativas para este excesso de poder. A nossa juventude está sendo espoliada da diversidade cultural brasileira e estamos calados.  Parece que a solução está na individualidade. É preciso tirar o pó dos cds e mostrar suas belas capas e as letras das músicas. É preciso contar a história de cada disco, dizendo como e porque o escolhemos. E também porque guardamos. E porque ficamos de olhos marejados, viajando no tempo, ao ouvir Geraldo Azevedo, Gilberto Gil, Altemar Dutra e Elis Regina, principalmente, cantando “Corsário”.