3 de nov de 2015

Por uma arte nas ruas e nos muros



Janilson Sales de Carvalho

                Há alguns anos, jovens artistas do grafite enfeitaram diversos muros da Cidade da Esperança com seus belos desenhos. A juventude os fazia superar todas as dificuldades materiais, o que importava era a arte aparecer para o público andarilho, mesmo que por pouco tempo. Entre esses artistas da rua figurava Ivan Cláudio, um jovem artista do bairro que morreu precocemente devido a uma doença congênita.   
                O tempo e o abandono apagaram as obras, restando agora muros mal pintados ou sujos. Sei que os proprietários não têm entre as prioridades o embelezamento dos muros,  mas, com certeza, não são avessos a uma obra de arte emoldurando as suas casas. Acredito que falta um debate sobre este assunto envolvendo o setor público. Sem exagero, incluo o grafite na saúde visual dos bairros. Quem não gosta de admirar, em seus trajetos rueiros, belas obras nos muros. O dia fica mais leve e a vida mais alegre.
Ano que vem teremos um ano eleitoral e a triste locação dos muros para nomes e números de políticos e partidos, principalmente nas periferias.  E o pior, após a política, vencendo ou perdendo, os candidatos abandonam aquela propaganda sem graça ao sabor do tempo e das intempéries, obrigando os transeuntes ao convívio com a poluição visual durante anos.
Precisamos de uma educação visual nos bairros que pode ser iniciada com a intensa produção de grafites, pelo menos nas ruas mais movimentadas. Vi esta semana a beleza que está desenhada no muro em frente à igreja católica da Cidade da Esperança. Encontrei nos meus arquivos um registro dos grafites anteriores e os mostro para simples recordação. Não precisamos comparar nada, mas ver que um muro com desenhos encanta nossos olhares,  pois nos atira no mundo das formas e das cores, apagando a sujeira e o vazio. 

Os artistas do grafite estão por aí, esperando o convite, o apoio e o muro. Nós estamos por aqui, desejosos de arte e de alegria. Precisamos encontrar mecanismos públicos e privados para que esse encontro com a arte aconteça. Todos ganham em saúde e alegria. 



6 de out de 2015

A Cidade da Esperança e seu novo visual



Janilson Sales de Carvalho



            Antigamente, o ponto mais alto da Cidade da Esperança era o morro que a separa da Cidade Nova. Subíamos o morro e olhávamos as ruas e suas casas com quintais arborizados. Sempre foi uma imagem poética e continua sendo.Hoje o bairro começa a ser ocupado por prédios de muitos andares e olhá-lo de cima passou de aventura infantil no morro para rotina doméstica nos apartamentos.   
            Este novo aspecto do bairro é revelador das profundas mudanças que atingem Natal. A verticalização das moradias é um fenômeno da paixão pelo bairro e pela cidade.O território natalense não comporta mais projetos residenciais de casas, restando aos que desejam aqui morar, a opção pelos prédios.
            Algumas análises apressadas avaliam a ida para os prédios como algo vinculado às questões de segurança. Com certeza algumas mudanças apoiam-se nisso, mas a maioria delas revela o desejo de proximidade com lugares historicamente estruturados em bases familiares, caso da cinquentona Cidade da Esperança.
            Quem caminha pelas ruas do bairro observa que centenas de casas foram partidas em duas ou três. Esta partição tem históricos familiares profundos, sendo a solução encontrada para apoiar e proteger filhos e netos.Famílias mais abastadas construiram andares superiores e acolheram da mesma forma seus componentes.
            Além dessas famílias que unem-se na mesma casa, algumas pessoas tem adotado o bairro como fonte de investimento, comprando e demolindo velhas casas, construindo prédios de dois e três pavimentos para locação de apartamentos que são ocupados rapidamente. 
            Sei que a verticalização do bairro será um processo lento, pois os antigos moradores amam suas casas e não planejam desfazer-se delas. Um prédio precisa de várias casas para tornar-se viável. Mas, lembremos que São Paulo também era um aglomerado de bairros como o nosso e, lentamente, transformou-se numa selva de pedra. Tudo muda o tempo todo em seu silêncio mineral.
            Mudanças assim são inevitáveis e não podemos sofrer com elas. Resta-nos mudar também o nosso modo de olhar e acompanhar o crescimento do bairro como o de uma criança, cercando-o de cuidados e zelos para que continue sendo este lugar maravilhoso para nós e  para os que virão.