6 de dez de 2016

A vez das postotecas, clubetecas e associatecas





Janilson Sales de Carvalho
                Para mim, o mundo perfeito teria muitas praças e muitas bibliotecas.  Tal possibilidade não existe, portanto, precisamos construí-la dentro da nossa realidade. As praças estão aí, abandonadas, entulhadas, aguardando sempre o serviço público tomar providências. As bibliotecas não existem porque não estão nas prioridades nas políticas dos governos. A cultura sempre está em milésimo plano.
                Há alguns dias fui deixar meu filho no quartel em Nova Descoberta. Observei a presença de uma geladeira na praça e desci para ver de perto. Pensei no ready-made de Marcel Duchamp em terras potiguares. Era uma geladeira transformada em estante. Abri e me deparei com dezenas de livros didáticos usados. Naturalmente, ali não estava uma manifestação artística, mas uma proposta de divulgação de leituras. Ótima ideia que aparentemente perdeu o rumo. Acredito que os primeiros livros eram de romances, contos  e poesias que com o tempo foram substituídos por livros didáticos. Esses livros escolares sempre remetem a refugo, sobra, restolho. A questão utilitária constrói uma imagem de objeto sem serventia. Sei que artesanalmente podem resultar em obras interessantes com o aproveitamento dos textos em novas roupagens. Dá um trabalhinho, mas vale a pena.

                Talvez a bela proposta de uma estante ao ar livre seja um bom começo, porém, percebi que há necessidade de uma maior atenção e de um monitoramento. Alguém que abre uma geladeira-estante com livros didáticos só faz isso uma vez. O meu encantamento submergiu, a alegria  se desfez. Quando doamos livros queremos que  outros também sintam a nossa alegria.
                Pensei numa alternativa: há sempre em todos os lugares espaços de uso coletivo. Temos associações de moradores, postos de saúde, clubes de jovens, de mães, etc.   Estantes com livros nesses lugares são projetos possíveis e tendem a permitir maior  acesso ao público e uma durabilidade das obras. Teremos postotecas, clubetecas e associatecas. Não importa a “teca” desde que esteja repleta de livros, de poesias e de sonhos.