29 de mar de 2017

Geraldo Carvalho e a arte de lapidar joias musicais

Janilson Sales de Carvalho

            A etimologia do nome "Geraldo" nos informa que ele tem origem alemã e significa: "o senhor da lança" ou "guerreiro forte". Esses conceitos identificam alguém determinado e destemido em suas ações. Se formos observar o campo da arte musical brasileira, teremos "Geraldos" que atuaram e atuam expressivamente nos presenteando com belas músicas e histórias. Entre eles temos: Geraldo Vandré, Zé Geraldo e Geraldo Azevedo. Qualquer relato de vida desses artistas revela uma luta imensa pela conquista de público e espaço. Tais exemplos são seguidos fielmente pelo Geraldo potiguar, nosso Geraldo Carvalho.
            Uma das conquistas recentes desse artista pode ser comprovada no convite feito pela Fundação José Augusto para uma apresentação como cantor convidado no  Dia da Poesia de 2017, em Natal. Esse importante evento já trouxe como convidados Chico César e Adriana Calcanhoto. Geraldo Carvalho está  residindo em Brasília, só vindo a Natal nos períodos de férias. O fato importante é que ele recebeu convite oficial do órgão responsável pelos projetos de cultura do estado. Só tenho a dizer que foi uma conquista por merecimento.
            Desde o seu primeiro cd, a poesia potiguar é vestida com os trajes da música e ganha novos espaços e novos admiradores. Vale ressaltar que esse músico não buscou em nenhum momento o jogo simplista dos belos versos com notas rápidas e fáceis. Pelo contrário, cavou profundamente a sintonia entre a proposta sensível dos versos e o ritmo e a sutileza das notas musicais. Isso pode ser  percebido nos poemas de Ferreira Itajubá, Haroldo de Campos e Jorge Fernandes musicados no primeiro cd. Vale lembrar que o poema "Manhecença", de Jorge, é o título desse disco.

            Geraldo Carvalho é um artista extremamente exigente com o próprio trabalho. Os dois cds,  "Manhecença" e "Um toque a mais", resultam de um profundo senso crítico e por isso agradam plenamente. As suas parcerias com Antonio Ronaldo, J.Medeiros, Romildo Soares, Franklin Mário, entre outros, têm contribuído para criação de belas músicas. Tenho "Preso no aquário", de Franklin Mário e William Guedes, como uma das preferidas. 
            Sem dúvida, a elaboração musical do potiguar pode ser inserida na mesma labuta descrita no poema "A um poeta", de Olavo Bilac, que revela o esforço trabalhoso na criação dos versos, mas também, por semelhança, na de qualquer obra de arte feita com seriedade e paixão. Os verbos-versos estão lá : "Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua."

            Há alguns anos, um artista de Natal comentou comigo que achou um erro Geraldo não ter colocado uma foto do rosto na capa frontal do primeiro cd. Naquela capa, um vulto segue tranquilo em alguma direção. Pensei um pouco sobre isso. Faz um bom tempo que conheço Geraldo e não me lembro de nenhum momento em que a "fogueira das vaidades" tenha ocupado a sua fala ou gestos. Lembro-me apenas da alegria e generosidade com que compartilha uma nova música com todos.
            Sempre vi simplicidade e elegância nas músicas do potiguar. Retomo o poema de Olavo Bilac, quando conclui: "Porque a beleza, gêmea da Verdade/ Arte pura, inimigo artifício/É a força e a graça da simplicidade." É no alicerce dessa bela simplicidade  que o potiguar está preparando seu próximo cd com lançamento programado para este ano em Natal. Será outra obra-prima feita pacientemente no longo intervalo após o último disco.  Esse tempo é fundamental para lapidação de mais uma bela joia. É por esse zelo respeitoso com o público que o nome de Geraldo Carvalho deve figurar entre os grandes Geraldos da MPB. São os nossos guerreiros fortes.