22 de fev de 2017

Banana Brava - 75 anos do primeiro romance de José Mauro de Vasconcelos



Janilson Sales de Carvalho

José Mauro de Vasconcelos escreveu o romance “Banana Brava” em 1942 e convidou Luís da Câmara Cascudo para apresentação. Em seu texto, Cascudo relatou alguns dados biográficos e valorizou a grande aventura vivida pelo escritor na selva brasileira, espaço onde a narrativa acontece.
Uma das atitudes admiráveis de José Mauro era conhecer profundamente os lugares e os grupos humanos que seriam personagens nos seus romances. Aqui no Rio Grande do Norte, temos entre seus textos: “Barro Blanco”, que tem como personagens os trabalhadores das salinas de Macau; “Doidão” e “Vamos aquecer o sol”, baseados nas vivências da adolescência em Natal.

“Banana Brava” resultou dessa incursão na floresta e da descoberta do mundo violento provocado pela cobiça nos garimpos lá escondidos. O que se tem na literatura é o surgimento de viventes que jamais figuraram em romances nacionais. O filósofo Gilles Deleuze registra em “Crítica e Clínica”: “A literatura é delírio e, a esse título, seu destino se decide entre dois polos do delírio. O delírio é uma doença, a doença por excelência a cada vez que erige uma raça pretensamente pura e dominante. Mas ele é a medida da saúde quando invoca essa raça bastarda oprimida que não para de agitar-se sob as dominações, de resistir a tudo o que esmaga e aprisiona e de, como processo, abrir um suco para si na literatura”
Sem dúvida, José Mauro revelou em muitos dos seus textos essa “raça bastarda oprimida”. Lamentavelmente, as universidades ainda não autorizaram seus alunos e pesquisadores a darem um mergulho na bela obra desse escritor. As poucas pesquisas realizadas abordam o romance “Meu pé de laranja lima”, seu texto mais conhecido.
Na apresentação escrita por Cascudo, o seguinte trecho remete ao tema discutido por Deleuze: “Dos seus meses na Terra dos Homens sem Piedade, nas Terras Ensanguentadas, nos Garimpos onde viceja e jamais frutifica a Banana Brava, veio esse romance, rude, claro, luminoso de verdade natural, de grandeza humana e fabulosa. É a voz que conta a viagem estranha ao Mundo onde ainda vivem os Cavaleiros da Távola Redonda, com um programa sinistro de guerra, morte, abnegação e silêncio. Mundo limitado pelos grandes rios, pelas barreiras altas, pela floresta misteriosa, povoada de sonoridades apavorantes, inexplicadas e envolventes.” 
 “Banana Brava” completa 75 anos em 2017 e permanece desconhecido para maioria dos brasileiros. Os seus personagens continuam entranhados na selva, só aparecendo em manchetes sangrentas de jornais sensacionalistas. Mas, o romance foi escrito e está aí para ser lido. Saiu da coragem de um jovem de 22 anos que se embrenhou na selva para descobrir esse povo e suas histórias. É hora desse povo (e de cada brasileiro) descobrir José Mauro de Vasconcelos.

Um comentário:

  1. Só para constar: Antônio Candido escreveu uma crítica sobre essa obra em 1946.
    E embora as universidades ainda sejam "tímidas" em estimular estudos sobre as obras de José Mauro, em 2012 defendi uma dissertação sobre BARRO BLANCO, na Universidade de Brasília, intitulada CACOS DA SECA E RESTOS DO SAL. Encontra-se disponível na internet.

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